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30 de setembro de 2010

alheios

"Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca
como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que
sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico,
transcorre em um brevíssimo instante." j. cortázar

segue a marcha triunfal.

agora, olha!, tenho em minhas mãos um coelhinho ensanguentado.

viu?, há mais alguns espalhados pelo canto da sala;

pode chegar mais perto. fica um pouco mais.

um outro se afogou na privada:

contempla seus olhos arregalados, vidrados, e

submergidos nas camadas espessas da água.

segura um pouco este aqui. cuidado!

acabou de nascer, quentinho e meio bobo.

ah, caiu...

não precisa se preocupar.

é que de quando em quando me acontece matar um ou dois coelhinhos. mas isso, você sabe, não é razão pra viver com medo, escondido. já te contei que os seus bichos nascem pré-determinados, não contei? então escuta agora, e em silêncio, os seus ruídos.

7 de junho de 2010

A poesia como performance

Annita Costa Malufe, COMO SE CAÍSSE DEVAGAR, Ed. 34, 2008


O último livro de poesia de Annita Costa Malufe intriga, de início, pela escolha dos autores e trechos que compõem a epígrafe: Deleuze e Mallarmé. O trecho citado de Um coup de dés, parece fazer da consideração do poeta francês um convite à uma maneira de ler o conjunto de poemas de Como se caísse devagar: “(...) resulta, para quem queira ler em voz alta, uma partitura”. Da indução de uma poesia em performance, simulando o “ao vivo”, se relaciona à referência a Deleuze. O poema de Annita se desenrola como ilustração de um procedimento de imanência, conceito religioso e filosófico. No caso, é o poema que se encena como a exibição de uma potência de sentidos possíveis do que foi enunciado e do que restou em silêncio, como sugere o filósofo francês: “todas as coisas falam e têm um sentido”. Utilizo a palavra poema no singular, pois os blocos de textos se concatenam de forma a construírem unidades de sentidos entre eles, se assemelhando, muitas vezes, a prosa. Assim, fica difícil demarcar os territórios de cada poema, ainda que haja diferenciações na espacialização no decorrer do livro. Tais diferenciações acabam por sugerir fôlegos de leitura diversos, que organizam a exposição de idéias em contínuo desdobramento como se fossem “divisões prismáticas da idéia”, para citar, novamente, Mallarmé.


De fato é como se o leitor estivesse diante de uma exibição. Sugerida, aliás, logo nos primeiros versos: “haveria alguém detrás das cortinas/quando as luzes se acendessem quando/ as cortinas se abrissem haveria alguém/ ali ao fundo de costas haveria um corpo (...)”. Através do procedimento de simulação de encenação se tem a sensação de que o poema se constrói no momento de sua leitura: expondo as dúvidas e excitações sobre como e o que escrever e escancarando o desejo de ser ouvido/lido. O poema vai, assim, denunciando o seu procedimento de composição ao revelar consciência de suas influências e inexistência de originalidade pura (“[..] há um pacto você não está sozinha seria mesmo/ uma certa ingenuidade acreditar numa autoria/ exclusiva olhe ao redor a mesa está posta e há um [..]”).


Das várias vozes que ecoam no interior do livro, duas merecem destaque: Ana Cristina César e Marcos Siscar. A poeta carioca é referência explicita, com citações que explicitam a intertextualidade e o “roubo” de versos, procedimento também empreendido por Ana C. De Marcos Siscar, poeta contemporâneo, a ligação está no plano formal (textos com pontuação quase inexistente, blocos de poemas em prosa) e na busca de uma dicção prosaica, mas, ainda assim, sofisticada.


Vale mencionar que Annita Costa Malufe estudou os dois poetas, à luz de teorias da filosofia da diferença, na qual se enquadra Deleuze, em seu trabalho de doutoramento (defendido em 2008). Assim, não parece exagero interpretativo considerar seu trabalho crítico como uma busca de um método de construção poética. Além de revelar um rastreamento dos precursores para a sua própria literatura.


Como se caísse devagar, resulta em um sólido projeto, pois chegamos ao fim da leitura com a sensação de enceramento de espetáculo. Explicita a performance do literário, questionando também seus limites. Tal procedimento é revelado desde o título, composto por uma frase condicional, e que no decorrer da leitura nos leve a questionar quais seriam as condições para a existência da poesia, revelando a multiplicidade de sentidos decorrentes das mais diversas e possíveis leituras de um texto literário.



3 de outubro de 2009

(ingridalvarez.com/)

contemplando o corpo morto

sobras desmanteladas de nossos desgastes

ruínas do porvir em possíveis afeições natimortas

não há redenção na espera incerta de suas horas precisas.

ao franzir da testa formam-se três camadas de pele

três rugas personificando a ação incompleta,

o acovardamento da evitação,

o fracasso do pensamento.

cansam os olhos postos em contemplação

cabeça baixa

coragem!

é preciso segurar o olhar

não deixar cair, mas

inadvertidamente,

.

dá-me, senhor, a coragem e a força de

contemplar meu corpo sem desgosto.

21 de setembro de 2009

Quantos cafés você toma por dia?

Você sabe que não há escapatória. Você, contra a sua vontade mais íntima, se orgulha de levantar todos os dias, cinco deles no mesmo horário, e tomar da mesma marca de café, em goles rápidos, sufocando qualquer questionamento. Você já não distingue os gostos dos líquidos da manhã, pouco importa (“tem gosto de café, não tem? será que já não é o suficiente?”). Você ostenta que se compraz com a mesma carícia frouxa em indiferença, recebida antes de partir. Você alarde que sua segurança no cotidiano conforta. Você se vale da certeza da existência dos próximos cafés, propulsão dos atos cotidianos. Você espera ansioso o café do meio, da manhã e da tarde. Você gosta do prazer do mediano (“já não é o bastante?”). Café imediato com gosto de máquina. Você é profundo conhecedor das texturas de espuma, sempre as mesmas com pequenas variações impostas pelo estado do filtro. Você é mestre em transformar o incomodo do amargo em melado de açúcar refinado, para manter a excelência aparente de suas horas inúteis. Você pensa que suas várias e esquemáticas doses diárias de café podem conter a curva do tempo. Mas, você não pode. Contudo, ninguém tira a certeza de sua superioridade ao manejar cafés. Você acredita que pode falar em salvos e submersos como se fossem torrões de açúcar que você assenta em sua xícara. A condição é acaso, imposto somente pela consistência aleatória do líquido. Você, nas conversas, está sempre sorrindo, gesticulando com elegância controlada. Postura ereta para manipular o universo em sua xícara. Você pensa que a cada mexida controla a ordem e regula o ritmo das tormentas com o movimento de sua colher. Mantém a sua arrogância dolorosamente simpática ao olhar displicente para o lado e bater o instrumento metálico na borda de porcelana. Sutil tilintar. Você, antes de recostar a colherzinha no pires, verifica se não houve nenhuma gota desperdiçada. Afinal, você sabe que não é permitido. Você não pode consentir que o material confinado aquela circularidade encontre qualquer escape.

7 de setembro de 2009

é como se fosse em um daqueles balões pula-pula em formato de bolha gigante colorida: estou deitada, sendo jogada para cima e para baixo. conseqüência dos pulos e movimentos das outras crianças. vez ou outra acontece de uma delas pisar em alguma parte do meu corpo estendido. 'foi sem querer', aceito! esfolam e eu cicatrizo, de baixo para cima.

26 de julho de 2009

não correio da distração




...,


Outro dia, li uma entrevista com o Alan Pauls (aliás, como vai a leitura de O Passado?) em que o escritor falava sobre a necessidade de ser intenso na cultura argentina:
"A imagem do tango, para os estrangeiros, não é de quem chora, é de quem vive intensamente. Mas o tema do tango é a anunciação da vítima, do homem abandonado, traído. E se vende o tango, que é uma cultura da vítima, como uma cultura da intensidade. Dito isso, chegamos a uma relação interessante que nos leva a perceber que, para nós, argentinos, a única forma de ser intensos seria sendo vítimas. Talvez os brasileiros tenham essa mesma relação. Talvez o único momento em que o brasileiro pode ser intenso é quando ele é feliz."

Quando li esse trecho, imediatamente, me lembrei de você e o quanto um relacionamento relâmpago me fez refletir sobre o que é ser intenso. O que sobra da intensidade? A fugacidade do intenso-rápido-corrosivo é suficiente para transformar o passado (ah, sempre o passado, sempre a polissemia da palavra...) em lembrança? Qual é o lugar da lembrança se não o presente? Daí que o problema do passado é o presente. E no interior do meu passado-presente relacionado à você se encenam essas questões. Não, não busco respostas, não busco explicações. Nada disso, apenas um interlocutor. Apenas uma busca por restos, sobras, arestas pontudas que, às vezes, inadvertidamente insistimos em bater com o dedinho, quando estamos distraídos. Sempre quando distraídos...

Pouco importa o quanto eu não consegui sair da nossa interação imune à você, ao que você representa[ou]. Não me peça definições, a única coisa que posso dizer é que com você e por você eu aprendi que me virar de ponta cabeça pode ser uma experiência mortal. Dançamos um tango sem vítimas aparentes, talvez essa seja uma boa metáfora. Me deixei ser revirada, abri, para você, muito mais do que as portas da minha intimidade.

Você verificou se fechou a porta atrás de você com cuidado?

Com carinho.
..

19 de julho de 2009

afeto de plástico

sempre achei que demoro mais do que os outros para aprender . sempre convivi com essa sensação de atraso, desde a pré-escola . falo de coisas banais e essenciais para a sobrevivência: amarrar o cadarço dos sapatos, por exemplo . o mesmo com os afetos. quando criança, bem pequena, eu tinha um porquinho (não era da índia, nem de bandeira) de plástico amarelo, com o cabelinho cor de rosa, todo enroladinho . das memórias das fotos, me lembro de levá-lo para todos os lugares, sempre segurando pelo cabelo . inseparáveis . de repente, sumiu dos álbuns . fugiu da lembrança . escapou . foi trocado . esquecido . esses dias, encontrei-o . no fundo de uma caixa velha no armário . estava sujo, rachado: cabeça de um lado, corpinho do outro.

6 de junho de 2009

Canteiro de taquicardias

Te dou a minha face polida.

Aquela que sorri dissimulada espera teu gesto.

Você pega na minha mão, não me conduz.

Sinto o cheiro da sua respiração, o quente encontro dos corpos.

Não te encontro mais nas palpitações.

Ficou a falta, a suspensão nas marcas roxas, nos filetes de pele.

Ardem.

18 de fevereiro de 2009

(http://tebe-interesno.livejournal.com/)


Observava com estupor e pavor as próprias entranhas. Tinha ganas de arrancar tudo de dentro e pendurar as vísceras ao sol. Colocá-las pra secar, pra sempre. Assim, perderiam aquele aspecto viscoso que tanto incomodava. Ou, quem sabe, se desintegrariam. Nesse caso, a solução inevitável: um transplante ou coisa que o valha.